de Eucanaã Ferraz
Eu caminhava
nu, sem que você visse.
Pra que você
visse, eu caminhava sem.
Você não
via. Pra que você soubesse,
eu caminhava
nem, sem que você visse,
eu caminhava
livre, além do limite de
ser ninguém,
sem remo e sem alento,
o andar
isento quase de mim mesmo,
num
estranho, cansado engano,
sem âncora,
no vento, e mais contente.
Nu, livro ao
avesso; nu, anel sem dedo;
nu, anel sem
dentro; nu, a pedra
bruta; nu,
um livro bruto, antes
do
acabamento, cimento grosso,
na antemão
da cal, da letra, descampado,
como se a
mão de alguém me desenhasse,
antiqüíssimo,
no dorso de um vaso.
Sem poder
ser belo, sem poder ser feio,
coisa-coisa
no espaço, no tempo, eu ia.
O sol me
reconhecia: eu era o filho
mais novo do
boro e do alumínio.
Meu passo
exalava o hálito do barro.
As crianças
me apontavam, riam.
Tudo se
condensava à minha roda.
No entanto,
nenhuma flor surgia
nos meus
passos: os brejos permaneciam
sáfaros,
cobertos de urzes, sem que nada
fosse
esquivo, estranho ou intratável,
nenhum
recife, navalha ou gesto sórdido.
E pra que se
desse a ver, meu silêncio
dizia:
cabelo, pele. Sorri: os anjos de pedra
me acenaram.
Eu caminhava sem,
em você, sem
que você visse.
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